terça-feira, 25 de novembro de 2008

Bons exemplos (4)


Foto retirada da net - O Castelo antes de reconstruído








Sempre conheci o Castelo em ruínas. Como se tivesse sido saqueado e destruído pelos piratas, os seus inimigos naturais.
Consta, no entanto, que o castelo não terá participado em muitas refregas, pois apenas a sua presença era suficientemente dissuasora para afugentar quem se aventurasse a cobiçar o alheio, neste Sul do Pico.
No meu tempo de menino, o castelo era, sobretudo, uma fronteira entre os vilas e os da ribeira do meio.
Dizia-me a minha avó que quem transpusesse esta fronteira de madrugada sujeitava-se a ser espedregado, pois aventuras destas são muito bonitas, mas devem ser feitas às claras.
E foi junto ao castelo que funcionou a primeira central eléctrica que iluminava as Lajes.
Lembro-me muito bem de acompanhar o meu pai, nos seus passeios nocturnos, até esta central.
Um pouco antes da meia-noite, o sr Arnaldo arrefiava a luz, avisando os mais distraídos que eram horas de dormir.
Depois, o sr Arnaldo desligava o único motor da central e um profundo silêncio invadia a vila. Seguia-se a viagem de regresso, agora às escuras, passando pelas portas do cemitério. Estas, devido às suas proporções gigantescas, levavam-me a admitir que os seus moradores seriam também de dimensões do outro mundo.
E, era aqui que o caminho gostava de me amedrontar, de um lado a dita porta, geralmente entreaberta, do lado oposto um despenhadeiro para o mar.
E se era bem verdade que eu não tinha culpa de os mortos estarem mortos, por mim estariam todos bem vivos, não deixava de sentir um calafrio, por eles serem bem capazes de fazerem uma qualquer desfeita, só por terem inveja dos vivos.
Passado o cemitério, surgia um novo obstáculo, a esquadra da polícia. Pois, a meu ver, até aquele meu simpático vizinho, que era agente, se transfigurava num cruel perseguidor de crianças desobedientes. Pelo menos era o que a minha avó me dizia, apontando para um sempre eterno puré de cenoura.
Só quando chegava ao lampião a petróleo que sinalizava a entrada marítima da carreira, à entrada da vila, é que uma infinita alegria me invadia a alma.
Então, insuflava bem os pulmões e corria passeio abaixo, fintando as árvores, até ouvir a voz de pai chamar-me.
Ah, que felicidade era poder regressar a casa, após correr mundo.

4 comentários:

Valter Medeiros disse...

Sem dúvida um bom exemplo! Felizmente no caso do Forte de Santa Catarina houve a sensibilidade de o reconstruir e requalificar, transformando-o num magnifico local de visita ogrigatória e um posto de turismo sem igual nos Açores.
Na minha opinião (e de muitas outras pessoas) um bom exemplo seria a restauração de, pelo menos, uma das lanchas do Pico (espalamaca, calheta, Picaroto...), que tanto serviram esta terra e agora jazem no estaleiro, quais condenados de pena capital à espera da concretizaçãoda sentença: a morte, não por enforcamento, cadeira eléctrica ou injecção letal, mas por motosserras e fogo. Meus amigos, e que tal incluir a restauração de uma destas embarcações na requalificação da Madalena e colocá-la no sitio da rampa do Porto Velho como monumento (bem merecido)?
O nosso problema é que somos o povo do conformismo: coformamo-nos com o que temos, reclamamos do que não temos, mas acabamos por não nos dar ao trabalho de fazer nada!

Parabéns pelo blog! Uma lufada de ar fresco depois de tantos outros blogs "de lavar roupa suja" que têm surgido nesta terra.

artur xavier disse...

Quem, da Ribeira do Meio ou da Vila, não percorreu os mesmos passos que o Paulo Dionísio percorreu, de mão dada com o Pai, desde o Castelo até ao centro do nosso pequeno burgo?...
Apesar de ter orgulho no nosso "castelo" e de estar feliz com a sua reconstrução, guardo, cá dentro, uma mágua: a das ameias viradas a oeste, para o mar, não serem de pedra - basalto negro! As próprias fotografias - magníficas, uma vez mais! - procuram (?)disfarçar este que, em meu modesto entender, é o calcanhar de Aquiles daquele magnífico espaço.

artur xavier disse...

Mágoa com "o" e não como, por lapso, escrevi.
Peço desculpa, pela gralha!

Juliana Couto disse...

Bem, já adorava a obra em análise...mas as fotos estão excepcionais. De facto as boas obras permitem tirar boas fotos.